{"id":10128,"date":"2026-01-20T02:42:18","date_gmt":"2026-01-20T02:42:18","guid":{"rendered":"https:\/\/news5.chainityai.com\/?p=10128"},"modified":"2026-01-20T02:42:20","modified_gmt":"2026-01-20T02:42:20","slug":"seu-proprio-pai-a-abandonou-no-deserto-por-ela-ter-nascido-menina-mas-o-cavalo-a-protegeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/news5.chainityai.com\/?p=10128","title":{"rendered":"Seu pr\u00f3prio pai a abandonou no deserto por ela ter nascido menina\u2026 mas o cavalo a protegeu\u2026"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/phi.nexusalipc.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/link_video-160.png\" alt=\"\" title=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sol n\u00e3o teve piedade naquele dia. Castigava a areia com for\u00e7a, transformando o deserto num vasto forno onde at\u00e9 o vento parecia queimar a pele. Em meio \u00e0quela imensid\u00e3o desolada, um grito rompeu o sil\u00eancio ancestral das dunas. N\u00e3o era o grito de um animal ferido, mas o de uma menina rec\u00e9m-nascida, mal envolta num pano sujo, abandonada \u00e0 pr\u00f3pria sorte sob uma mesquiteira seca que oferecia apenas um t\u00eanue sombreamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minutos antes, a figura de um homem alto e rude partira a cavalo sem olhar para tr\u00e1s. Seu veredicto fora curto e brutal: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o vale nada\u201d. Disse isso com o desprezo de quem joga fora uma ferramenta quebrada, cego por uma f\u00faria insensata. Ele queria um menino, um herdeiro para suas terras, algu\u00e9m que carregasse seu sobrenome com for\u00e7a. Mas o destino lhe dera uma menina, e em seu cora\u00e7\u00e3o endurecido, isso era uma ofensa imperdo\u00e1vel. Ele a deixou ali, condenando-a a ser devorada pela sede ou por feras, convencido de que o deserto se encarregaria de apagar seu \u201cerro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o deserto tem olhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longe, uma silhueta branca se destacava contra o c\u00e9u azul profundo. N\u00e3o era uma miragem. Era um cavalo. Sozinho, com a pelagem suja de poeira e antigas cicatrizes cruzando suas costas, o animal observava a cena. Chamavam-no de &#8220;Niebla&#8221; nas aldeias pr\u00f3ximas, embora n\u00e3o tivesse dono. Era uma besta livre, desconfiada dos humanos, um esp\u00edrito errante que parecia n\u00e3o pertencer a ningu\u00e9m. Contudo, ao ouvir o choro do beb\u00ea, algo em seu instinto mudou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cavalo desceu a duna com passos lentos, mas determinados. Fareou o ar quente e aproximou-se da pequena criatura que se contorcia na areia. Qualquer outro animal teria passado direto, mas Niebla parou. Abaixou a cabe\u00e7a enorme e soprou suavemente no rosto da menina, como se tentasse afastar seu medo. Ent\u00e3o, com uma delicadeza que n\u00e3o condizia com seu tamanho, dobrou as patas e deitou-se ao lado dela, usando o corpo para formar uma barreira contra o sol e o vento. Ali permaneceu, im\u00f3vel, transformado no guardi\u00e3o de uma vida que acabara de ser descartada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As horas passaram. O calor persistia, mas Niebla n\u00e3o se mexia. Ent\u00e3o, o destino jogou sua segunda carta. Dona Tomasa, uma mulher de m\u00e3os calejadas e rosto marcado pelo tempo, caminhava pela antiga trilha em busca de ervas. Ao ver o cavalo deitado naquela estranha posi\u00e7\u00e3o, aproximou-se cautelosamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo a\u00ed, animal?&#8221;, murmurou ela, intrigada com a imobilidade da besta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Niebla ergueu a cabe\u00e7a e olhou para ela, depois apontou o focinho para o embrulho no ch\u00e3o. Tomasa seguiu seu olhar e largou a cesta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMeu Deus!\u201d exclamou ela, caindo de joelhos ao lado do beb\u00ea. \u201cQuem poderia ter uma alma t\u00e3o cruel a ponto de te deixar aqui?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filhote, desidratado e com a pele avermelhada, mal tinha for\u00e7as para choramingar. Tomasa o tomou nos bra\u00e7os, sentindo a fragilidade daquela vida em suas m\u00e3os. Enquanto o embalava, sentiu o olhar do cavalo. Niebla se levantou, sacudiu a crina e bufou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVoc\u00ea cuidou dela, n\u00e3o \u00e9?\u201d disse Tomasa, com a voz embargada. \u201cVoc\u00ea tem mais cora\u00e7\u00e3o do que aquele desgra\u00e7ado que a gerou.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela tarde, Tomasa retornou \u00e0 sua humilde casa de adobe com uma beb\u00ea nos bra\u00e7os e um cavalo a poucos passos atr\u00e1s. N\u00e3o havia necessidade de cordas ou cercas; Niebla havia escolhido seu lugar no mundo. O que ningu\u00e9m sabia \u2014 nem mesmo Tomasa naquele momento \u2014 era que aquele ato de crueldade no deserto n\u00e3o seria o fim, mas o in\u00edcio de uma tempestade que, anos depois, retornaria para abalar os alicerces do homem que se considerava intoc\u00e1vel. Porque o sangue chama, e a justi\u00e7a, embora tardia, sempre encontra o caminho de volta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os anos voaram sobre o pequeno povoado, levando consigo a poeira e trazendo novas hist\u00f3rias, mas nenhuma t\u00e3o peculiar quanto a de Reina e seu cavalo. Tomasa a chamou de Reina, \u201cporque, mesmo que a tratassem como lixo, voc\u00ea caminhar\u00e1 por este mundo de cabe\u00e7a erguida\u201d, ela sempre lhe dizia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A menina cresceu forte, a pele escurecida pelo sol e os olhos escuros brilhando com uma vivacidade inteligente. E sempre ao seu lado estava Niebla. Eram uma s\u00f3 sombra. O cavalo envelheceu, seus movimentos tornaram-se mais lentos, mas sua lealdade jamais vacilou. Esperava por Reina do lado de fora da cabana todas as manh\u00e3s, acompanhava-a at\u00e9 o riacho e deitava-se a seus p\u00e9s enquanto ela desenhava na terra com um graveto. Na aldeia, as pessoas cochichavam. Diziam que o cavalo era encantado, que entendia a l\u00edngua humana, que era o esp\u00edrito de algum ancestral protegendo a menina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cDeixe-os falar\u201d, dizia Tomasa enquanto tran\u00e7ava os cabelos escuros de Reina. \u201cAs pessoas t\u00eam medo do que n\u00e3o entendem, e um amor t\u00e3o leal quanto o daquele animal \u00e9 dif\u00edcil de compreender para cora\u00e7\u00f5es insens\u00edveis.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina estava feliz \u2014 ou pelo menos pensava que estava. Mas, \u00e0 medida que deixava de ser crian\u00e7a, as perguntas come\u00e7aram a brotar como ervas daninhas. Por que ela n\u00e3o tinha pai? Por que Tomasa, a quem amava perdidamente, evitava seu olhar quando ela perguntava sobre sua m\u00e3e? E por que sentia um arrepio estranho toda vez que passavam perto dos limites do \u201cRancho La Esperanza\u201d, a maior propriedade da regi\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dia, o destino decidiu que era hora de come\u00e7ar a mover as pe\u00e7as. Reina, agora uma jovem mulher, caminhava em dire\u00e7\u00e3o ao mercado com Niebla ao seu lado. Em um cruzamento, depararam-se com um cavaleiro. Era um homem mais velho, de postura r\u00edgida, montado em um reluzente puro-sangue preto. Vestia-se com a eleg\u00e2ncia dos antigos propriet\u00e1rios de terras: chap\u00e9u fino, botas lustradas e uma jaqueta de couro impec\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era Dom Rogelio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina tentou dar um passo para o lado para lhe dar passagem, por respeito aos mais velhos, mas Niebla se manteve firme. O velho cavalo branco, geralmente d\u00f3cil, fincou os cascos no ch\u00e3o e soltou um relincho profundo, quase um aviso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Tirem esse animal da frente!&#8221;, latiu Dom Rogelio impacientemente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina puxou delicadamente a crina de Niebla.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cCalma, meu velho, vamos l\u00e1\u2026\u201d ela sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ent\u00e3o Dom Rogelio baixou o olhar e seus olhos encontraram os de Reina. O tempo pareceu parar. O propriet\u00e1rio de terras sentiu um soco no peito, uma tontura repentina. Aqueles olhos. Aquele jeito de franzir a testa. Era como ver um fantasma. Como se visse a si mesmo num espelho do passado, misturado com a lembran\u00e7a de Eufrosina, sua falecida esposa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Quem \u00e9 voc\u00ea, garota?&#8221;, perguntou Rogelio, com a voz menos firme que o habitual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSou Reina, senhor. Filha de Dona Tomasa\u201d, respondeu ela com dignidade, mantendo o olhar fixo nele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O homem engoliu em seco. N\u00e3o podia ser. Sua filha havia morrido. A parteira lhe dissera que se livrara dela, que o deserto a engolira. Mas o sangue n\u00e3o mente, nem o instinto. Rogelio esporeou o cavalo e galopou para longe, fugindo n\u00e3o da menina, mas da verdade que o atingia em cheio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina ficou ali parada, confusa, com o cora\u00e7\u00e3o acelerado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPor que ele me olhou assim, Niebla?\u201d, perguntou ela ao cavalo, acariciando seu pesco\u00e7o. \u201cParecia que ele tinha visto o diabo\u2026 ou um santo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela noite, a d\u00favida se instalou no cora\u00e7\u00e3o de Reina e n\u00e3o a deixou dormir. Ela come\u00e7ou a procurar \u2014 nas gavetas antigas de Tomasa, nos sil\u00eancios dos vizinhos, nos olhares evasivos. Semanas depois, encontrou uma carta antiga escondida no fundo de um ba\u00fa. A caligrafia era tr\u00eamula, escrita por uma mulher chamada Eufrosina, endere\u00e7ada a um homem chamado Rogelio: \u201cEu sei que voc\u00ea queria um menino, mas esta crian\u00e7a \u00e9 do nosso sangue. Se eu morrer, jure-me que voc\u00ea a amar\u00e1.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina confrontou Tomasa. Houve l\u00e1grimas, houve gritos e, finalmente, a verdade veio \u00e0 tona. Tomasa contou tudo a ela: sobre a crueldade do pai, sobre como ele a abandonou por ter nascido mulher e como ela e Niebla a salvaram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Ele te descartou como lixo, minha filha&#8221;, solu\u00e7ou Tomasa, &#8220;mas veja no que voc\u00ea se tornou. Voc\u00ea \u00e9 um tesouro.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina n\u00e3o chorou. Naquele instante, suas l\u00e1grimas secaram e deram lugar a um fogo frio. N\u00e3o era \u00f3dio; era algo mais forte: dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o vou ficar aqui escondida, mam\u00e3e Tomasa\u201d, disse Reina, levantando-se. \u201cEle pensa que estou morta. Ele pensa que seu \u2018erro\u2019 desapareceu. \u00c9 hora de ele saber que ainda estou aqui.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO que voc\u00ea vai fazer?\u201d perguntou Tomasa, assustada. \u201cAquele homem \u00e9 poderoso, Reina. Ele pode te machucar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina olhou para o p\u00e1tio, onde Niebla descansava sob o luar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o vou pedir nada a ele. N\u00e3o quero seu dinheiro, seu sobrenome, nem seu afeto falso. Vou devolver-lhe a vergonha. E n\u00e3o irei sozinha.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na manh\u00e3 seguinte, Reina vestiu suas melhores roupas \u2014 simples, mas impec\u00e1veis. Tran\u00e7ou os cabelos com firmeza e saiu para o quintal. Niebla, apesar da idade e das dores, levantou-se com dificuldade. Sabia que era um dia importante. Reina montou nele sem sela, como sempre fazia, e juntos partiram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 fazenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao chegarem aos port\u00f5es de \u201cLa Esperanza\u201d, os trabalhadores rurais ficaram sem palavras. Ver aquela jovem humilde entrar com tanta determina\u00e7\u00e3o, montada num velho cavalo que caminhava com a majestade de um rei, inspirava respeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dom Rogelio estava na varanda de sua imponente casa, revisando alguns documentos. Ao ouvir os cascos, ergueu os olhos. Quando viu Reina parar diante dele, empalideceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu j\u00e1 disse que n\u00e3o queria te ver na minha terra\u201d, disse ele, tentando recuperar sua arrog\u00e2ncia, embora suas m\u00e3os tremessem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina n\u00e3o desmontou. De cima, olhou para ele com uma calma que o desarmou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o vim para ficar, Dom Rogelio. Vim para que o senhor pudesse me ver.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO que voc\u00ea quer? Dinheiro? Trabalho? Volte para a casa da sua m\u00e3e e me deixe em paz.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMinha m\u00e3e morreu no dia em que eu nasci\u201d, disse Reina claramente, para que todos os trabalhadores da fazenda pudessem ouvir. \u201cE meu pai\u2026 meu pai morreu no dia em que me abandonou na areia para ser queimada pelo sol.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um sil\u00eancio sepulcral pairou sobre a fazenda. Rogelio sentiu o ar lhe faltar nos pulm\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVoc\u00ea\u2026 voc\u00ea n\u00e3o sabe o que est\u00e1 dizendo\u201d, gaguejou ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu sei de tudo\u201d, interrompeu Reina. \u201cEu sei que voc\u00ea queria um menino. Eu sei que voc\u00ea desprezava a minha vida porque sou mulher. Voc\u00ea achava que eu n\u00e3o valia nada. Voc\u00ea achava que o deserto me apagaria da mem\u00f3ria. Mas voc\u00ea estava enganado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina acariciou o pesco\u00e7o de Niebla.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEste cavalo \u2014 um animal sem alma, segundo voc\u00ea \u2014 tinha mais humanidade do que voc\u00ea. Ele me aqueceu quando voc\u00ea me deu frio. Ele me protegeu quando voc\u00ea me descartou.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dom Rogelio tentou sustentar o olhar dela, mas n\u00e3o conseguiu. A vergonha \u2014 aquela que ele havia enterrado sob camadas de orgulho e dinheiro \u2014 come\u00e7ou a rachar sua fachada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMeu nome \u00e9 Reina\u201d, continuou ela, \u201ce esse \u00e9 o \u00fanico nome que preciso. N\u00e3o preciso do seu sobrenome para ser algu\u00e9m. Fui criada por uma mulher corajosa e um cavalo nobre. Vim para retribuir isso a voc\u00eas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina tirou a velha carta do bolso \u2014 aquela que encontrara no ba\u00fa \u2014 e a deixou cair no ch\u00e3o. O papel flutuou at\u00e9 perto das botas lustrosas do propriet\u00e1rio de terras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFique com isso. \u00c9 a \u00fanica coisa que lhe restou dela. Eu tenho o sangue dela e a for\u00e7a dela. Voc\u00ea s\u00f3 tem a sua terra e a sua solid\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem esperar por uma resposta, Reina virou Niebla. O cavalo, pressentindo o momento, bufou alto na dire\u00e7\u00e3o de Rogelio como uma senten\u00e7a final e come\u00e7ou a caminhar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda. Reina n\u00e3o olhou para tr\u00e1s. Ela deixou a fazenda de costas eretas, transformando o homem mais rico da regi\u00e3o no homem mais pobre do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela noite, gritos foram ouvidos na fazenda. A atual esposa de Rogelio \u2014 uma mulher que havia suportado seu mau humor por anos \u2014 ouviu a hist\u00f3ria. Ao saber da monstruosidade que seu marido havia cometido, ela fez as malas e partiu ao amanhecer. Rogelio ficou sozinho em sua imensa casa vazia, cercado por luxos que n\u00e3o podiam comprar seu perd\u00e3o, encarando a carta de Eufrosina e sabendo que havia perdido sua \u00fanica chance de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, na casa de Tomasa, reinava a paz. Mas o tempo n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua, e o esfor\u00e7o da viagem fora demasiado para Niebla.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dias ap\u00f3s o confronto, o velho cavalo j\u00e1 n\u00e3o conseguia se levantar. Reina passou tr\u00eas noites dormindo no est\u00e1bulo, com a cabe\u00e7a do amigo repousando em seu colo. Ela falava com ele baixinho, relembrando-o de todas as vezes que correram juntos, agradecendo-lhe por cada momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAgora voc\u00ea pode descansar, meu velho amigo\u201d, sussurrou Reina entre l\u00e1grimas, acariciando seu focinho grisalho. \u201cVoc\u00ea cumpriu seu dever. Estou forte agora. N\u00e3o tenho mais medo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Niebla olhou para ela com seus olhos profundos e \u00famidos. Soltou um longo e profundo suspiro, deixando para tr\u00e1s anos de vigil\u00e2ncia. E ali, sob o mesmo c\u00e9u que os vira se conhecer, o cavalo fechou os olhos para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dor de Reina era imensa, mas n\u00e3o a destruiu. Pelo contr\u00e1rio, a morte de Niebla tornou-se a semente do seu futuro. Ela compreendeu que a melhor homenagem n\u00e3o era lamentar para sempre, mas honrar a li\u00e7\u00e3o que ele lhe ensinara: proteger os indefesos, valorizar a vida e ser leal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina vendeu algumas joias que Tomasa havia guardado e, com a ajuda de vizinhos que admiravam sua coragem, transformou o antigo armaz\u00e9m atr\u00e1s de sua casa em uma pequena escola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Anos mais tarde, se voc\u00ea passasse por aquela vila, veria um pr\u00e9dio simples, mas cheio de vida. Na entrada, havia um mural pintado \u00e0 m\u00e3o. Mostrava um deserto dourado, um beb\u00ea pequenino e um grande cavalo branco protegendo-a. Abaixo, uma frase escrita em letras grandes: \u201cA coragem n\u00e3o est\u00e1 no sangue, mas no cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina tornou-se a professora da aldeia. Ensinou as crian\u00e7as a ler e escrever, mas acima de tudo, ensinou-as a acreditar em si mesmas. Acolhia aqueles que ningu\u00e9m queria \u2014 os \u00f3rf\u00e3os, os &#8220;erros&#8221; dos outros \u2014 e dava-lhes um prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certa tarde, enquanto as crian\u00e7as brincavam no quintal, um velho decr\u00e9pito e solit\u00e1rio parou para observar do outro lado da cerca. Era Rogelio, abatido pelos anos e pelo remorso. Ele observava Reina rir, rodeada de amor, sendo a m\u00e3e que ele nunca conseguira ser como pai. Quis se aproximar, quis pedir perd\u00e3o, mas suas pernas n\u00e3o obedeciam. Compreendeu que existem dist\u00e2ncias n\u00e3o percorridas com passos, mas criadas por a\u00e7\u00f5es \u2014 e a sua era infinita. Abaixou a cabe\u00e7a e seguiu seu caminho, desaparecendo no esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reina o viu se afastar, mas n\u00e3o sentiu ressentimento. Sentiu pena. Voltou sua aten\u00e7\u00e3o para seus alunos, sorriu e olhou para o c\u00e9u. Sabia que, em algum lugar entre aquelas nuvens brancas cruzando o azul, Niebla ainda galopava, velando por ela, sabendo que o beb\u00ea que salvara na areia se tornara uma mulher que estava salvando o mundo, uma crian\u00e7a de cada vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, no fim das contas, fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o sangue que corre nas suas veias; \u00e9 quem te ampara quando o mundo te deixa cair. E \u00e0s vezes, o anjo que te salva n\u00e3o tem asas \u2014 tem quatro patas e um cora\u00e7\u00e3o maior que o pr\u00f3prio deserto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>O sol n\u00e3o teve piedade naquele dia. Castigava a areia com for\u00e7a, transformando o deserto num vasto forno onde at\u00e9 o vento parecia queimar a <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/news5.chainityai.com\/?p=10128\" title=\"Seu pr\u00f3prio pai a abandonou no deserto por ela ter nascido menina\u2026 mas o cavalo a protegeu\u2026\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":10126,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10128","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorised"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10128","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10128"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10128\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10129,"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10128\/revisions\/10129"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10126"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10128"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10128"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/news5.chainityai.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10128"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}